Precisamos de duas palavras

1 de Fev de 2021

Acabo de me dar conta de que parecem não existir palavras simples para um conceito chave no estudo de jogos. Refiro-me aos diferentes papéis que uma pessoa desempenha ao participar de qualquer jogo.

Vou tentar explicar isso com uma analogia para o teatro. Distinguimos ator de personagem. É verdade que, em uma determinada instância de uma peça de teatro, ator e personagem são a mesma pessoa humana, realizando os mesmos atos e dizendo as mesmas palavras.

A chave da diferença é a motivação de cada um destes papéis. Quando Ruth interpreta Lisístrata, a motivação da atriz pode ser ter o bastante para pagar as contas do fim do mês, mas a motivação de Lisístrata é interromper a guerra entre as cidades gregas. Lisístrata abomina uma guerra que, para Ruth, acabou há mais de dois mil anos.

O mesmo acontece em um jogo, e é um fenômeno conhecido. Quando decido me sentar para jogar Truco com meus amigos, a minha motivação pode ser me divertir; quando estou jogando, a minha motivação é procurar vencer. As motivações são distintas, e os papéis são também distintos, embora seja uma mesma pessoa, realizando os mesmos atos e dizendo as mesmas palavras.

Claro, há pessoas que misturam as duas coisas. É isso que inspira a admoestação implícita na afirmação olímpica, “o importante é competir e não vencer”.

Temos, então, uma dicotomia análoga à dicotomia ator-personagem; mas acho que a língua portuguesa e a língua inglesa não incluem palavras diretas para o papel da pessoa protojogadora, e para o papel da pessoa jogadora.

Ficam a curiosidade, e a pergunta: como referir estes dois conceitos?

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LC, o Quartelmestre

Também conhecido como Luiz Cláudio Silveira Duarte. Escritor, poeta, pesquisador, jogador, polímata, filômata... está bom para começar.