A estranheza

23 de Fev de 2022

Ontem, fui a Curitiba. Por força da natureza de meu compromisso, retornei mais tarde do que é meu costume, pelo último ônibus do dia.

Dormi por quase todo o percurso; só acordei quando o motorista me chamou, já no ponto final. Eram quase onze da noite.

Estou morando aqui há menos de três meses; a rua da minha casa já é familiar o suficiente para que eu pense nela como “minha rua”.

Ontem, acordado de um sono profundo, eu caminhava pela rua e não a achava nada familiar. No horizonte, as luzes dos navios; sob meus pés, as pedras sobre as quais caminho todos os dias, meu caminho iluminado pelas mesmas estrelas e pelos mesmos postes de outras noites.

Mas eu via estranheza.

De onde vinha ela?

Num repente, entendi: eu olhava para a rua e via estranheza, mas a estranheza não estava na rua, e sim em mim mesmo.

O sono me entorpecia mente, espírito, corpo. Eu não chegava a tropeçar ou cambalear, mas meu passo não era o passo seguro que habitualmente adoto.

Eu mantenho uma indagação perene sobre os nossos vieses, sobre características externas e internas que modificam as nossas percepções e as nossas ideias. A estranheza de uma rua familiar me revelou a força de mais um viés.

A pergunta é inevitável. Onde mais estou cambaleando, afetado por um sono do qual acordo com dificuldade?

Esta é uma pergunta, e não uma preocupação. Não vou perder o sono com ela.

Mas talvez sonhe…

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LC, o Quartelmestre

Também conhecido como Luiz Cláudio Silveira Duarte. Escritor, poeta, pesquisador, jogador, polímata, filômata... está bom para começar.