Música e distração

Música para ouvir e sonhar.

16 de Jun de 2023

Há alguns dias, passei por uma cirurgia de catarata em um dos olhos (na semana que vem terei a segunda). Estou me recuperando bem, felizmente, mas parte desta recuperação é a dificuldade em ler e escrever, enquanto me adapto a minha nova visão.

Tenho visto vários filmes. Hoje vi novamente um dos meus preferidos de todos os tempos, Casablanca (1942). Por mais insensata e irreal que seja esta história, continuo fascinado por este filme; como diria o cap. Renault, sem dúvida é o romântico em mim.

Mas agora estou vendo e ouvindo outro filme, de 1940: Fantasia. Antes de existirem fitas de videocassete ou DVDs, os estúdios Disney passavam anos sem permitir a reexibição de seus clássicos no cinema. Eu dei a imensa sorte de estar no Rio de Janeiro na ocasião em que Fantasia foi relançado em circuito comercial. A casa de meus avós, na Tijuca, ficava perto da praça Saénz Peña, onde havia excelentes cinemas. Meu preferido era o Cine América, mas acho que não foi nele que eu conheci esta obra.

O fato é que eu fiquei inteiramente encantado. Eu já conhecia todas aquelas músicas; vê-las em forma visual foi algo maravilhoso. E o filme ainda se abre com a Tocata e Fuga BWV 565, de Bach; uma peça que se gravou em meu coração desde a primeira vez que a ouvi.

A propósito da Tocata… Alguns anos depois disso, eu estava em São José dos Campos, no Instituto de Proteção ao Vôo. Eu tinha algumas fitas cassete com música; um dia, um colega de alojamento ouviu a Tocata, ficou interessado e me pediu a fita emprestada. Colocou-a em seu walkman, pôs os fones e se deitou na sua cama, ouvindo a música com os olhos fechados, todo concentrado. O volume era suficiente para que eu ouvisse, mesmo do outro lado do alojamento. Quando a música acabou, ele deu um grito entusiasmado: “Uau! Que orgasmo cósmico!”

Nesta época, ainda era possível fazer o que chamávamos “sessão corrida”: comprar o ingresso para a primeira sessão do dia, e ficar na sala mesmo depois do fim do filme, para emendar direto na sessão seguinte. Foi o que eu fiz com Fantasia — muitas, muitas vezes! Duas sessões em alguns dias, três em outros… acho que, quando o filme deixou de ser exibido, eu o tinha assistido mais de vinte vezes.

Meu avô achava aquilo muito peculiar, mas, em nossas conversas sobre o filme, ele me contou uma coincidência interessante: quando minha avó estava no hospital, para o parto de minha mãe, ele foi para um cinema próximo para não se preocupar com a paternidade iminente — e foi justamente ver Fantasia!

Em anos posteriores, eu tive uma cópia deste filme em videocassete, depois em DVD. Hoje eu a tenho em forma de arquivo em meus discos rígidos. Minhas filhas, ainda bem crianças, também se encantaram com esta obra-prima; Thalia, especialmente, tinha um grande fascínio pelo trecho do Aprendiz de Feiticeiro (bem ao contrário do meu gosto). Mas fico fascinado em perceber os laços que ligam minha família a este filme… e mesmo, agora, enquanto escrevo, ouço justamente os acordes iniciais da cena famosa de Mickey.

Forcei um pouco a vista, de propósito, para escrever este trecho; mas agora retorno às cores e sons.

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LC, o Quartelmestre

Também conhecido como Luiz Cláudio Silveira Duarte. Escritor, poeta, pesquisador, jogador, polímata, filômata... está bom para começar.