Lucretia

8 de Jul de 2023

O mito

Conforme a mitologia cívica romana, o evento que disparou o fim da monarquia foi um estupro. Sextus Tarquinius, filho do rei Lucius Tarquinius Superbus, estuprou Lucretia, esposa exemplar de Lucius Tarquinius Collatinus (um primo do rei). No dia seguinte, Lucretia denunciou o crime, e se matou na frente de seu pai e outras pessoas – para expiar sua vergonha, e para inflamar o desejo de vingança. As principais famílias de Roma se uniram, expulsaram o rei e sua família, e proclamaram uma República. Collatinus foi um dos dois primeiros cônsules do novo Estado romano.

Este é o mito, conforme transmitido até nós por autores latinos e gregos. O estupro de Lucretia e o seu suicídio tornaram-se temas recorrentes na literatura e em outras artes, desde a Antiguidade. Mais uma vez, um ato de violência contra uma mulher era transformado em um mito de origem, e em base para criações artísticas.

Mas mitos se transformam, como todas as narrativas, especialmente as relevantes e poderosas. E a transformação do mito de Lucretia torna-se, por sua vez, o mito de origem para ROMAMOR.

O conto

Lucretia estava no átrio, realizando uma oferenda de espelta aos Lares da casa de Lucius Tarquinius Collatinus. Ouviu o som de alguém batendo à porta, no vestíbulo, e ouviu o som discreto dos passos do escravo que foi ver quem chamava; mas o rito já começara, e ela não o interrompeu.

Lucius Tarquinius, seu marido, era a pessoa mais importante na vila de Collatia. Mesmo em Roma, ele seria uma pessoa de destaque, um dos muitos primos do rei. Como sua esposa, senhora da casa, os ritos aos Lares eram sua responsabilidade.

Lucretia encerrou o rito, e descobriu sua cabeça, somente então se voltando para o vestíbulo. Ali estavam seu marido, trajando sua toga, e um homem jovem, em trajes militares, e que claramente havia cavalgado recentemente.

Lucius Tarquinius rompeu o silêncio, falando ao outro homem: “Como eu lhe disse, primo, Lucretia é uma flor entre as mulheres. Veja que ela estava realizando uma oferenda aos Lares de minha casa, e não interrompeu os ritos sagrados. Por isso lhe pedi silêncio.”

O jovem carregou o cenho com uma expressão desagradável, e respondeu “Admirável, meu primo, admirável. Mas o pó de Ardea até aqui ainda está na minha garganta.”

Lucretia dirigiu-se a seu marido, dizendo “Seja bem-vindo de volta a sua casa, Lucius Tarquinius.” Voltou-se para o visitante, e continuou “Seja bem-vindo, senhor, à casa de Lucius Tarquinius, representante do rei em Collatia.”

Lucius Tarquinius adiantou-se e pegou a mão de Lucretia. “Minha esposa, hoje nossa casa está sendo honrada”, disse, conduzindo-a pela mão até o visitante. “Este é meu primo, Sextus Tarquinius, filho do rei.”

Sextus Tarquinius tomou a mão de Lucretia entre suas mãos e a puxou para si, abertamente examinando-a de alto a baixo. “Primo, está de parabéns. Sua mulher é linda.”

“Sim. Sou muito afortunado. Lucretia é linda e virtuosa.”

A isso, Sextus Tarquinius deu um meio sorriso sardônico. Lucretia recolheu sua mão, e chamou o mordomo, dizendo-lhe que providenciasse vinho para o nobre hóspede, e que chamasse seu pai. Feito isso, conduziu-os para o triclínio.

Dois escravos ajudaram Sextus Tarquinius a remover seu equipamento, e lavaram seus pés. Neste meio tempo, um homem idoso entrou no triclínio, e Lucius Tarquinius o apresentou ao hóspede.

“Meu primo, este é o meu sogro, Spurius Lucretius, que está nos visitando.”

O ancião levou a mão ao peito e se inclinou ligeiramente. “É um prazer revê-lo, Sextus Tarquinius.”

“O prazer é meu, Lucretius.” Sextus fez um leve aceno com a cabeça, à guisa de cumprimento. “Eu não esperava encontrar o prefeito de Roma aqui, nestas terras rústicas.”

“Sextus Tarquinius, eu lhe asseguro que você não vai encontrar em Roma uma casa mais acolhedora do que a casa de meu genro. É sempre um prazer visitar Lucius Tarquinius.”

Os homens se acomodaram nos leitos enquanto continuavam a conversa. Lucius Tarquinius indicou ao seu primo que ocupasse o lugar de honra, no leito central. Os escravos passaram a trazer os alimentos, colocando-os na mesa do centro, ao alcance das mãos dos convivas.

“Lucius, sua linda esposa não vai se juntar a nós?”

“Não, meu primo. O triclinium é lugar para homens e para conversa de homens.”

Sextus Tarquinius fez um gesto com a cabeça, indicando uma jovem escrava que, naquele momento, servia vinho a Spurius Lucretius. “Não inteiramente, Lucius.”

“Ora, primo, Hemina não está aqui para conversar, e sim para trabalhar. Lucretia também tem seu trabalho de dona de casa, tenho certeza que está agora mesmo na cozinha cuidando para que tudo corra bem em nosso pequeno simpósio.”

Spurius Lucretius deu uma leve risada. “Pessoalmente, eu não aprecio esta moda de reclinar para comer. Mas, reclinado ou sentado, Lucius Tarquinius é um romano que sabe governar bem sua casa, Sextus Tarquinius.”

“Disso não tenho dúvida. Mas, Lucius, você provocou, então não reclame.”

“De quê, meu primo?”

“Da aposta que vou lhe propor. Você disse que Lucretia deve estar na cozinha, cuidando do nosso repasto. Vamos verificar isso pessoalmente. Se ela estiver lá, você vence; se não, estiver, eu venço.”

“Qual o prêmio da aposta, primo?”

“Uma ânfora de bom vinho falerno.”

“Concordo, então. Que Spurius Lucretius seja a testemunha.”

“Certamente. Sextus Tarquinius, prometo beber à sua saúde o vinho que você vai pagar a meu genro.”

Os homens se levantaram, rindo, e passaram pelo átrio, em direção à cozinha. Lá, viram uma escrava cuidando do fogão, enquanto Lucretia media, cuidadosamente, as especiarias para temperar a comida. Ao ver os três homens, ela pousou as medidas sobre a mesa e se dirigiu a eles.

“Meu marido, está tudo em ordem?”

Lucius Tarquinius sorriu, entrou no espaço apertado e esfumaçado, e segurou as mãos de Lucretia, beijando-as antes de responder. “Tudo em perfeita ordem, minha esposa. Pode continuar, vamos voltar ao triclínio agora.”

De volta ao triclínio, Lucius Tarquinius e Spurius Lucretius se divertiram com o resultado da aposta. Sextus Tarquinius recebeu de boa mente as brincadeiras, prometendo enviar no dia seguinte a paga.

A conversa e o jantar adentraram a noite. Quando os homens voltaram a se levantar dos leitos, Lucretia os aguardava no átrio, e conduziu o hóspede ao seu quarto. Sextus Tarquinius agradeceu ao seu anfitrião, e desejou boa noite a todos. Spurius Lucretius fez o mesmo e seguiu para seu quarto, um pouco adiante, enquanto Lucretia e Lucius Tarquinius se demoraram um pouco no átrio.

“Muito obrigado, minha esposa. Mais uma vez, você honrou a minha casa.”

“Fico feliz em ouvir isso, Lucius Tarquinius.” Ele sorriu e pegou a mão dela, apertando-a de leve entre as suas. “Você deseja minha companhia esta noite?”

“Não, minha esposa. Nossas noites, juntos, não são para dormir… mas amanhã eu tenho que acordar muito cedo, para atender aos meus deveres.”

Lucretia deu-lhe um leve beijo, e disse “Eu entendo, Lucius. O dever primeiro, sempre.” Lucius Tarquinius ergueu a mão dela aos seus lábios, beijou-a com os olhos fechados, e depois foi em direção a seu quarto.

Acompanhada por um escravo, Lucretia cuidou de apagar as lâmpadas ainda acesas, recolhendo o óleo. Finalmente, a última lâmpada ainda acesa serviu para iluminar o caminho para seu quarto. Depois que ela fechou a porta, o escravo apagou a lâmpada e se acomodou para dormir.

Ele não ouviu o leve clique de uma porta se fechando, do outro lado do átrio.


Lucretia acordou sobressaltada, sentindo uma mão abafando sua boca.

“Silêncio, mulher!” A luz fraca que a pequena janela deixava passar revelava apenas um vulto, mas a voz era a de Sextus Tarquinius. Lucretia teve outro sobressalto, ao sentir a ponta de uma lâmina deslizar entre seus seios.

“Fique quietinha, minha linda. Eu não quero machucar você, muito ao contrário. Mas, se você não quiser, tudo bem. Eu mato você, depois mato o seu escravo que está dormindo aí fora, coloco os dois aqui juntos, e digo que matei uma adúltera para proteger a honra do meu anfitrião.”

Lucretia tinha se mantido rígida enquanto o agressor falava. Quando ele se calou, alguns segundos se passaram antes que ela movesse levemente a cabeça, concordando.

Sextus Tarquinius afastou um pouco a mão que ainda abafava a boca. Quando ela se manteve quieta, ele desceu a mão para apalpar o seio nu. Lucretia soluçou um pouco, mas não fez outro som, enquanto ele apalpava e apertava seu seio.

Ela continuou a se manter em silêncio, suportando a violência e o abuso, lágrimas descendo por seu rosto no escuro.

Sextus Tarquinius finalmente se deu por satisfeito, e ainda estava apreciando o prazer do momento quando Lucretia o atingiu na cabeça, com força, com o urinol de latão, ao mesmo tempo derramando o conteúdo sobre ele e sobre o leito. O duplo atordoamento impediu que ele reagisse quando ela tomou sua adaga.

Lucretia mergulhou a adaga na virilha do estuprador, traspassando seu pênis. Sextus Tarquinius urrou com o golpe, e tentou tomar a arma, mas não conseguiu. Lucretia manteve a lâmina dentro dele, e a retorceu, procurando aumentar a ferida. O sangue jorrava, empapando o leito.

A comoção acordou toda a casa. O escravo abriu a porta e tentou acudir, mas Lucretia proibiu a entrada e ordenou que buscassem seu marido e seu pai. Enquanto isso, Sextus Tarquinius estertorava sobre o leito, sem forças para se levantar, nem para retirar a adaga que Lucretia ainda mantinha em seu corpo.

Quando Lucius Tarquinius e Spurius Lucretius chegaram, sobressaltados, Lucretia permitiu que eles entrassem. Os dois estavam emudecidos, contemplando a cena terrível, à luz das lâmpadas que os escravos seguravam junto à porta, sobre as cabeças, todos curiosos por ver o que se passava.

Lucretia retirou a adaga de dentro do corpo de Sextus Tarquinius, que agora apenas gemia sobre o leito. Ela se ergueu, vestida apenas com o sangue de seu agressor, com a arma na mão, e dirigiu-se a todos.

“Sextus Tarquinius cometeu o mais grave dos crimes, condenado por todos os deuses. Ele violou a sagrada hospitalidade desta casa, e ele violou a natureza sagrada do meu corpo. Ele paga com seu sangue por esta violência.” Ela ergueu a adaga, pela qual o sangue ainda escorria. “Sextus Tarquinius achou que eu seria submissa a ele. Pois eu lhe digo que ele se enganou.”

Lucretia continuou, agora entoando marcadamente suas palavras. “Ouvi, romanos. Ouvi, Mãe dos Lares, vilipendiada hoje. Ouvi o meu juramento. Lucretia, filha de Spurius Lucretius, jamais será submissa, e nenhuma romana jamais o será. Assim o juro, e entrego à Mãe Terra o sangue desta vítima em sacrifício.”

Ela se dirigiu à porta, e todos se afastaram apressadamente de seu caminho. Saindo do quarto, Lucretia foi até o jardim, ajoelhou-se e mergulhou a lâmina ensanguentada na terra. Manteve-se de joelhos, soluçando, as lágrimas correndo novamente por seu rosto. Continuou ali mesmo quando Lucius Tarquinius cobriu seus ombros com um cobertor.

Atrás dela, seu marido e seu pai discutiam o que fazer, indignados com o crime de Sextus Tarquinius. Ela ouviu palavras de revolta contra o rei, e contra os reiterados abusos que ele e sua família cometiam.

Mas não ouviu nenhuma palavra sobre ela.

Pós-escrito

Nenhum dos participantes destes acontecimentos sabia disso naquela noite, mas a sua importância foi muito além de provocar o fim da monarquia e o início da República romana.

Décadas e séculos depois, olhando para a história, outras pessoas buscaram inspiração nos atos de Lucretia: em seu desafio, em sua insubmissão, em seu juramento – e, acima de tudo, na inversão que realizou, quando transformou seu estupro em um sacrifício sagrado, ao mesmo tempo transformando-se de vítima em sacerdotisa, e transformando seu estuprador em vítima sacrificial.

Os atos de Lucretia não foram mágicos; a sociedade romana não amanheceu o dia seguinte transformada. Mas Lucretia foi transformada, assim como as pessoas que os testemunharam, e assim como as pessoas que souberam deles depois.

Ela não viveu para ver muitas das mudanças que inspirou. Por mais de trezentos anos, as mulheres romanas conduziram uma luta difícil, por vezes tão sangrenta quanto o sacrifício de Lucretia.

O mito de Lucretia é apenas o ponto de partida do mundo de ROMAMOR… mas muitas histórias ainda serão criadas nele.

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LC, o Quartelmestre

Também conhecido como Luiz Cláudio Silveira Duarte. Escritor, poeta, pesquisador, jogador, polímata, filômata... está bom para começar.