Pasárgada
Lembrando o lar de meu pai.
Os últimos anos de vida de meu pai aconteceram em um pequeno apartamento do centro de Belo Horizonte, alugado a seu amigo Demétrios. Papai tinha um quadrinho pendurado na parede sobre sua cama, identificando aquele cantinho tranquilo como sua Pasárgada. Ali ele era amigo do rei, e tinha na cama que escolhera a mulher que quisera. Na madrugada em que ele morreu, no hospital, era eu quem dormia ali, e assim recebi sua Pasárgada.
Mais tarde, minha irmã querida devolveu Pasárgada ao rei seu amigo. Recentemente, ela me enviou uma quantidade de documentos do acervo de papai; entre eles, estava o quadrinho.
De meu pai, herdei a mesma sina nômade que ele recebera de meu avô. Acompanhei, por anos, a sua preocupação e o seu sofrimento por não ter um lugar seu neste vasto mundo. Fiquei muito feliz quando ele conseguiu se sentir tranquilo no apartamento de seu amigo querido, onde vivia e podia receber sua amada.
Olho para o quadrinho desde que chegou aqui. Na parede, tenho um outro quadro, criado e presenteado por ele, que identifica minha casa: é o Refúgio do Pinguim – “uma casa perfeita, quer você goste de comer, ou conversar, ou contar histórias, ou jogar, ou apenas de sentar e pensar, ou ainda uma mistura agradável de tudo isso.” Este é meu refúgio, mas não é minha Pasárgada; escolhi minha cama, mas nela não está a mulher que quero.
Hoje terei outra alegria, ao receber a visita de meu filho. É a ele que darei o quadrinho, para que ele receba por mim a Pasárgada de seu avô, e a faça dele. Sei que estará em mãos boas, firmes, carinhosas.