Revisitando Pournelle
Sem tê-lo planejado, estou realizando um exercício interessante. Recentemente, quando decidi reduzir minha participação no mercado mundial de servidão digital, também decidi voltar a ler livros. Escolhi um de Jerry Pournelle, sem grandes pretensões; acho que tinha lido alguma menção a seus livros, ou coisa assim.
Pournelle é um dos grandes nomes da “segunda onda” da ficção científica americana. Ele e Larry Niven criaram algumas obras excelentes, como The Mote in God’s Eye (que Robert Heinlein disse ser uma das melhores histórias de ficção científica que ele já lera).
Sua produção foi copiosa e digna de nota, tanto no campo da ficção quanto na realidade. Trabalhou na NASA e em outros órgãos de pesquisa do governo americano. Foi um dos primeiros bloggers, colunista por décadas da revista Byte.
Peguei para ler um livro de ficção científica militar, The Prince, uma coletânea de outros que eu já lera várias vezes no passado. Dele parti para outros, em exploração. Os livros não mudaram; o leitor, sim.
Já não consigo mergulhar no livro e aceitá-lo como uma realidade apartada, da qual o autor dita o funcionamento. Posso tranquilamente aceitar a proposta de viagem transluminal, claro; como já foi dito antes, um elemento comum da ficção científica é partir de um elemento hipotético (ou alguns), e então derivar consequências verossímeis. Pournelle, como outros magnatas da hard SF, faz isso muito bem.
Meu problema é com suas perspectivas sociais, humanas, ecológicas.
Ele claramente tem um pressuposto geral: há um grupo de pessoas que detêm conhecimento suficiente para resolver todos os problemas do mundo, e basta ficarem livres de controles e amarras e o farão. Chame de engenheiros, de técnicos, de tecnocratas, o que quer que seja: aqui estão os filósofos da República platônica. Há os que sabem, e os que não sabem; e aqueles têm que poder dizer a estes como levar suas vidas.
A ficção de Pournelle foi majoritariamente escrita nas décadas de 1960 e 1970. Cinquenta anos depois, aqui e em muitos outros lugares do mundo ainda estamos lidando com as consequências horrendas das decisões de tecnocratas e outros “detentores do conhecimento” – e continuamos a ter que lidar com os contemporâneos.
Seria fácil dizer que estes tecnocratas não eram “verdadeiros” tecnocratas, ou então que não puderam fazer tudo o que precisavam por conta de pressões políticas, sociais, econômicas… Seria fácil, claro. Mas penso no debate lembrado por Arnaldo Jabor:
Nunca me esqueço de um debate do grande intelectual “aroniano” José Guilherme Merquior com dois marxistas na TV. Os dois falavam sempre dos erros da esquerda, mas considerados apenas como “percalços” de uma marcha triunfal para o futuro. Eles diziam, batendo no peito: “Erramos no stalinismo, na Hungria, em Praga, aqui erramos em 1935, 1964, em 1968, mas continuaremos lutando.” Merquior respondeu na lata: “Por que vocês não desistem?”
Um exemplo, dentro do texto, de algo que foi visto por décadas como uma tecnologia futura promissora: a mineração de nódulos metálicos no fundo do oceano. Em uma cena do conto “The Enforcer” (1974), leio:
An inside shot of the barge showed pulverization and suspension sorting machinery. Constant streams of muck spewed forth from the sorting barges to drift with the current, and a dark cloud settled slowly toward the invisible abyssal floor below.
Doyle felt a growing admiration for the American engineer who had built all this. “Doesn’t that sediment give your manganese dredges some problems?” Enoch asked.
“Uh?” Alden glanced at the screen. “No. It settles too slowly, and there’s a fast current.”
Ele está descrevendo o que, hoje, sabemos ser uma gigantesca catástrofe ecológica – que está acontecendo! E por aí vai; as grandes soluções tecnológicas que ele advoga têm, todas, custos gigantescos, que oneram todo o mundo.
Não é só. É fácil identificar, no texto, o racismo e o sexismo que eram moeda corrente na cultura de seu tempo. Em alguns casos, isso ameaça a willing suspension of disbelief, mas não chega a destruí-la.
Mas há outros. Em Go Tell the Spartans, Skida Thibodeau comanda um estupro coletivo como parte de sua campanha terrorista contra o reino planetário de Esparta. Concedo que a cena faz sentido dentro da história, e Thibodeau dá uma explicação explícita neste sentido para um de seus subordinados. No entanto, Pournelle, como autor, escolheu usar um estupro coletivo, seguido de morte, como o código para dizer ao leitor “estes personagens são maus”. Como autor, ele poderia não ter mencionado o estupro; afinal, os terroristas cometem outros crimes ao longo do livro, que são mencionados genericamente como “atrocidades”. Houve uma escolha deliberada, que me fez pensar muito no conceito de “mulheres em geladeiras”.
Pouco antes, Owensford havia refletido sobre como soldados estão prontos a morrer por pedaços de pano — não pelo que são, mas pelo fato de serem símbolos, e os soldados estão prontos a morrer pelo que os símbolos representam. Logo a seguir, na primeira cena de Thibodeau, ela pensa com desprezo em homens prontos a morrerem por palavras. Mais uma vez, há uma escolha deliberada por parte de Pournelle, usando sua voz autoral, para mostrar “ela é má”.
Outro ponto que ressalta é a aversão de Pournelle a qualquer tipo de políticas sociais para auxílio a pessoas desfavorecidas. Chamemo-las de Welfare State, ou qualquer outra coisa. Em seus livros, as pessoas que recebem ajuda do Estado estão se condenando, permanentemente, à miséria, ao analfabetismo, ao ódio e revolta contra qualquer pessoa “melhor”, e – especialmente! – a se tornarem massas de manobra política, que serão usadas por homens inescrupulosos que as desprezam inteiramente; a prova de que são maus é que sempre estão contra os “engenheiros” que conhecem as soluções.
Mudou o leitor, sem dúvida. Estes livros me encantaram por décadas, com o doce canto da sereia das respostas prontas e fáceis. O mundo real é o mundo dos wicked problems.