Uma fábula
Maria era uma mulher resoluta. Sabia ser boa motorista, com disposição de trabalhar duro. Decidiu montar um serviço de transporte escolar.
Começou pequena, com cuidado. Com seu bom crédito, conseguiu um financiamento para uma van nova. Cumpriu todos os regulamentos. Fez o curso, todos os documentos em dia, bem como a manutenção do veículo. Contratou uma amiga como monitora.
O negócio cresceu. Em alguns anos, Maria tinha uma pequena frota de quatro vans, atendendo a algumas dezenas de famílias na sua região, e nove pessoas em sua folha de pagamento. Um sucesso.
Mas Maria estava cansada. Queria algo diferente para sua vida. Queria poder, ao menos, descansar. Passar um mês em uma praia. Pensou em se desfazer da empresa. Investigou alternativas, e descobriu que eram todas horríveis. Seria quase começar do zero novamente – só que agora ela tinha que se preocupar com as despesas que não tinha antes, e que passara a pagar com o seu faturamento. Não tinha sequer como passar um mês em uma praia, por conta de todas as suas atividades.
De te fabula narratur: é de você que fala a fábula.
Mas a história de Maria ainda não é a fábula. Esta vem agora.
Mesmo os rios mais caudalosos começam em uma simples nascente, um olho d’água começando um percurso de transformações. O percurso pode ser sinuoso ou mais direto, íngreme ou mais plano. No caminho, vai acumulando o que recebe de inúmeros afluentes. Sua força cresce, seu leito se aprofunda.
É fácil mudar o curso de um riacho que mal começou. Mudo o lugar de meia dúzia de rochas, e lá se vai o futuro rio por outro caminho.
Mas mudar o curso de um rio? Cada vez mais difícil. Uma represa, por exemplo: além do seu custo direto, qual é o impacto do novo lago? e da redução do curso d’água abaixo?
Decisões que tomei cedo determinaram muito do meu percurso. Mudá-lo agora tem um alto custo: exatamente o que ganhei no percurso que escolhi. Que criei! Água, lodo, leito; mas, sobretudo, as pessoas que bebem das minhas águas.